trégua e facas

"Tenho tanto sentimento que é frequente persuadir-me de que sou sentimental. Mas reconheço, ao medir-me, que tudo isso é pensamento, que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra vida que é pensada. E a única vida que temos, é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada. Qual é a verdadeira e qual a errada, ninguém nos sabe explicar; E vivemos de maneira que a vida que a gente tem é a que tem que pensar". Fernando Pessoa

Tuesday, November 13, 2007


“Bom, vão falar do Iraque”, pensei. Refletir (quase escrevi repetir) escolhas passadas. “E pensar sobre o rumo a ser tomado” alguém me disse. Engano esperado.
O filme é um porre e pretensamente engajado.
Há diálogos paralelos, independentes e ocorridos ao mesmo tempo. Um senador que conta o novo plano de ataque ao Afeganistão a uma jornalista. Dois jovens universitários, um negro e outro latino, que se alistam no exército estadunidense com a desculpa de fazer ambos sua parte para um mundo melhor e conseguir fundos para pagar o financiamento da faculdade. E um professor que questiona seu aluno de ciência política e quer saber onde foi que “o perdeu”, ou melhor, onde foi que o jovem parou de acreditar na política.
Os diálogos são em sua maior parte fracos. O estereótipo do senador estadunidense que quer levar o velho lema da “paz ao povo americano” já é batido. O tema de que à guerra vão apenas aqueles que não são importantes politicamente à nação é real, mas também um velho conhecido dos círculos de filosofia e ciências sociais. Além do que aquele discursinho barato entre o professor e o aluno é pura balela.
Mas enfim, engoli tudo goela abaixo e assisti. Esperei um desenrolar diferente do que escuto desde a época do cursinho em 2001. Mas nada. A única coisa que faz não perder todo o filme é o personagem de Meryl Streep, o único que pode trazer algum tipo de reflexão relevante. Seu personagem é uma repórter que um dia apoiou a Guerra contra o terrorismo e hoje critica esse discurso. A imprensa que um dia vendeu a Guerra, mas que agora a condena. Esse personagem se vê na posição de cometer esse erro novamente e por isso diante de uma escolha ética diante do papel ideológico que a mídia representa. Publicar ou não a matéria sobre a nova estratégia de promoção da paz ao povo “americano”, sabendo que isso seria um meio de aceitação popular daquele. Constatação da não neutralidade dos meios de comunicação e a tomada de posição ética diante disso.
Agora, todo o resto é batido. Depois de Michael Moore não dá mais para fazer uma abordagem falsamente crítica da política estadunidense. Ora, enquanto todo o mundo já fez esse tipo de crítica há seis anos, somos obrigados a engolir a reflexão pobre e tardia do primo rico? Não, recuso-me. Todo mundo já falou das falhas da Guerra, das desculpas esfarrapadas, do petróleo, do envolvimento das famílias Sadam e Bush, do alistamento na Guerra apenas daqueles que são os indesejados sociais... Se isso agora tem importância para eles, se é agora que eles estão percebendo os erros do passado, eles que vão fazer terapia, e não fazer cinema antiquado.
Zizek fala que o sistema ele mesmo dá espaço para que seja criticado; é comum à própria ideologia liberal os campos de abertura nos quais essa ideologia é atacada. Mas isso, diz o filósofo, é a própria condição de manutenção deste modelo de política, a falsa idéia de que no mundo cabem todos, até os que não estão satisfeitos. Michael Moore é a prova disso, enquanto produto da sociedade estadunidense. Já o filme de Tom Cruise não. Leões e cordeiros é equivocadamente político, mas é certeiramente ultrapassado.

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