trégua e facas

"Tenho tanto sentimento que é frequente persuadir-me de que sou sentimental. Mas reconheço, ao medir-me, que tudo isso é pensamento, que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra vida que é pensada. E a única vida que temos, é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada. Qual é a verdadeira e qual a errada, ninguém nos sabe explicar; E vivemos de maneira que a vida que a gente tem é a que tem que pensar". Fernando Pessoa

Monday, June 30, 2008

* "Do I move you" - Nina Simone


Sabe, queria (ou quero) a queda sem fim, o gosto viciante, o toque que corta, o olhar que rasga. As pontas dos dedos que seguram todo o impulso do corpo pulsante. O salto. Só o salto. Subir num lugar muito muito alto, parar, olhar para baixo, deixar as ondas vibrantes invadir isso que existe. Segurar a respiração. Aliás, por que prender a respiração nos momentos de maior emoção? Acho que é porque, nestes momentos, quer-se o que ainda não se tem e não se sabe, por isso, vive-se a expectativa; expectativa do desconhecido. Então é isso? Quando não conhecemos algo e supomos a grande emoção que trará, paramos de respirar? Prende a respiração, olha para baixo, mas fecha os olhos. Imagina lá embaixo. Porque não respirar e olhar para baixo? Porque é racional! Porque escolhemos perder a razão e deixar que algo não controlável e não nós nos comande. Incrível. Nos deixamos lá em cima! Mas algo cai. Nos deixamos e nos jogamos. E o caminho? A queda? Não há controle: magnífico! Aceitamos tudo que é nosso mas que não depende de nós. Chamar isso de instinto? Acho que não. O que é? Não sei. Mas também não quero saber. Quero cair. Cair e me deixar lá em cima. Não quero pensar a conseqüência, o fim, o chão. Quero a queda.
*foto: um dos espetáculos de Pina Bausch