trégua e facas

"Tenho tanto sentimento que é frequente persuadir-me de que sou sentimental. Mas reconheço, ao medir-me, que tudo isso é pensamento, que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida e outra vida que é pensada. E a única vida que temos, é essa que é dividida entre a verdadeira e a errada. Qual é a verdadeira e qual a errada, ninguém nos sabe explicar; E vivemos de maneira que a vida que a gente tem é a que tem que pensar". Fernando Pessoa

Wednesday, June 07, 2006


Eu sou o que escolho ser e mais o que não escolho ser. Não escolho minha liberdade, do que resto me escolho por completo. Escolho me alienar no outro para me encontrar e me afirmar. Mas às vezes escolho embarcar num navio e ser minha própria referência. Escolho gritar, gritar, gritar... Chorar, sorrir. Escolho... Existo, sou livre e você... Não sei quem é. Eu gosto.
Gosto do cheiro da grama que acaba de ser cortada, do cheiro da chuva que está por vir, do cheiro do livro novo ou velho e usado. Do aperto no coração minutos antes de fazer algo errado (ou certo). Do dedo áspero q toca e corta meu rosto. Do riso da despedida, das lágrimas do reencontro e do tremor do novo. Do beijo que sempre beijo. Da língua no canto da boca. Do suor na testa e no peito. Do vento roçando meus braços e despenteando meu cabelo já despenteado. Gosto da água quente tocando meus pés gelados. Gosto de quando meu coração fica frio e logo queima loucamente pelo novo. Gosto do novo, do velho, e do agora que não consigo ver. Gosto de sentir o que não sei. Gosto de não saber. Gosto do gosto da cachaça e do tambor da música que penetra no meu ser e que me faz me perder em mim e viajar em Dionísio. Gosto de saber que todos podemos enlouquecer e que na verdade já é tarde de mais. Gosto do erótico, de olhar, do romântico, do acariciar, do pecado, de morder - do eterno encaixe. Gosto de pensar que o mundo vai acabar agora e dele não acabar e de eu me sentir perdida por isso. Gosto de pensar que não sobreviverei e ter certeza de que não acredito nisso. Gosto de receber ajuda, de ser pega no colo mesmo sem precisar. Gosto de olhar no olho e me sentir confortada, mesmo sabendo que o único conforto sou eu mesma. Gosto de saber que não há resposta, e mesmo assim querer saber qual é a pergunta.

#música: In the dark, Nina Simone

1 Comments:

Anonymous J. Henrique said...

A beleza dos textos postados é incrivelmente parecida com meus pensamentos. Não sabia da identificação entre o q foi sempre duro demais diante dos homens pra eu dizer e a expressão de Fernando Pessoa (pequeno trecho do início).
Com relação a este texto, repete-se a admiração.
A polidez das palavras não permite cortar o meu olhar de leitor atônito, mas me impede d deixar de ler o restante do blog. uau, como as coisas são. o frio e o livro, o café e o desejo paralelo da neve no mundo do pensamento e do sentimento, algo concreto no quem eu sou.

8:22 PM  

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